segunda-feira, 13 de março de 2017

Reportagem DOC Investir na qualidade


O rebanho, perfeitamente adaptado ao Semiárido, ainda tem sido alvo de melhoramentos. Fotos: Honório Barbosa


Em Quixadá, no Sertão Central, um frigorífico modelo dá o exemplo de que investir na qualidade agrega valor à produção de caprinos e ovinos
por Honório Barbosa - Repórter

Implantado há 21 anos, o Frigorífico Pé de Serra, em Quixadá, no Sertão Central do Ceará, foi pioneiro no corte industrial de peças de ovinos e caprinos, condicionadas a vácuo. A unidade é fruto de um sonho do produtor rural Paulo Holanda, que tem uma vida dedicada à agropecuária e à melhoria genética dos animais. O empresário inovou em tecnologia de criação e abriu portas para outros produtores ao tornar-se referência no setor.

LEIA MAIS

.Combate à fome

.Criadores no limite

.Palma é uma alternativa

.Tabela: conheça opções de alimentos para o gado

"É preciso muita perseverança, dedicação, e, infelizmente, falta apoio e incentivo do governo. Estamos resistindo com muito sacrifício", frisa o empresário. O sertão cearense enfrenta um dos piores ciclos de estiagem. Desde 2012 que a região registra chuvas abaixo da média. Reservas hídricas e alimentares estão se esgotando. A seca traz dificuldades para os criadores. Animais mais rústicos e resistentes, como ovinos e caprinos, também sofrem as consequências da escassez de alimentação. O rebanho diminuiu. Afinal, a comida está muito mais cara.

Localizada às margens da Rodovia CE-060, entre as cidades de Quixadá e Quixeramobim, a Fazenda Pé de Serra dispõe de área de criação e reprodução de animais de alta linhagem genética, filhos de campeões nacionais, unidade de processamento de carne de ovinos e caprinos, uma loja para venda dos produtos e de um restaurante que oferece culinária regional, com pratos típicos que fazem o gosto dos comensais.

"Sou criador desde os 14 anos e sempre acreditei na formação de um banco de genética para que os animais no sertão cearense pudessem dar um salto a partir da melhoria das raças, que eram de baixa qualidade. O rebanho deu um pulo", afirma. A consequência direta dos anos seguidos de seca é a redução do rebanho, descarte, a perda de peso dos animais. "Esse é o lado ruim, mas há um aspecto positivo: os criadores preservaram o que há de melhor e o preço foi mantido", diz. Segundo as informações de Holanda, cerca de 70% da carne de ovinos consumida no Ceará e no Nordeste são oriundas do Uruguai.


Buchada, sarapatel, linguiças, pernil, paleta, filé, lombo, carré de cordeiro e costela são alguns exemplos de peças que a unidade produz

"A nossa carne é superior, tem mais sabor, menos gordura. Faltam investimento e incentivo para os produtores", frisa. Paulo Holanda sugere a criação de programas municipais de empréstimo de reprodutores de alta qualidade genética, por meio de rodízio, para os criadores.

Outro problema assinalado pelo criador é o abate clandestino. A chamada carne de moita chega aos pontos de venda e aos restaurantes sem controle sanitário. "Afirmo, sem medo de errar, que 99% do abate são clandestinos e falta fiscalização dos órgãos estaduais e municipais".

O presidente do Sindicato Rural de Quixeramobim, Cirilo Vidal, observa que, nos últimos anos, cresceram os furtos de animais nas fazendas, outro fator de desestímulo para os produtores rurais.

O mercado é promissor. A produção regional anda longe de atender à demanda. De olho neste cenário, que já perdura há décadas, Paulo Holanda decidiu implantar o frigorífico para o processamento das carnes, com cortes industriais e melhor aproveitamento da carcaça. "Inovei, lançando 65 itens, cortes especiais de ovinos e caprinos. Temos tamanhos para atender à necessidade de restaurantes e das famílias", destaca.

Buchada, sarapatel, linguiças, pernil, paleta, filé, lombo, carré de cordeiro e costela são alguns exemplos de peças que a unidade produz, tudo empacotado a vácuo. O frigorífico chegou a abater 3.000 animais por mês, mas agora reduziu para 800/mês. A maioria (95%) é de ovinos e caprinos adquiridos de criadores da região. "Só abatemos 5% da criação própria, o descarte, porque, na fazenda, priorizamos a reprodução para a melhoria genética dos animais", explica.

O preço da arroba (15 quilos) para o produtor varia entre R$ 195 e R$ 210, dependendo da idade dos animais. Paulo Holanda informa que o Brasil, em 1996, apresentava um consumo per capita ano de 120 gramas. Hoje, está em torno de 900 gramas. "Houve um aumento considerável", orgulha-se.

Produzir ovinos e caprinos oferece muitas vantagens em relação à criação de bovinos, mas muitos resistem por preconceito. "Uma vaca come por dez ovelhas, o pequeno produtor tem mais condições de alimentar, escapar criando ovinos, que é mais resistente e com menor custo de produção", compara Holanda.

A crise que se abate sobre o setor agropecuário em particular atinge a unidade do produtor Paulo Holanda. "Enfrentei, logo no início, dois anos de seca, em 1998 e 1999, mas resistimos", diz. Há 18 anos, investiu R$ 430 mil, por meio de financiamento no Banco do Nordeste (BNB) para implantar o moderno frigorífico.

"O Banco não liberou o capital de giro, não tivemos o apoio que necessitávamos e há uma execução judicial em andamento. Todo esse meu patrimônio está sob risco. Quem quer trabalhar, produzir iria arriscar toda uma vida e os bens da família? Prefiro não saber o valor atual da dívida", encerra Holanda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Câmara de Vereadores Homenageia Radio Cidade AM de Campos Sales pelo seu aniversario

COMUNICADO CONEXÃO: estivemos na sessão desta sexta-feira feira, 18 de agosto, da Câmara de vereadores. Fomos falar sobre os 32 anos da rádi...