sábado, 25 de março de 2017

Reconciliação da Igreja com Padre Cícero ainda causa controvérsias



Nessa sexta-feira (24) completou 173 anos do nascimento do 'Padre Cícero Romão Batista de Juazeiro do Norte'



Romeiros lotam a Praça do Socorro para reverenciar o Padre Cícero Romão Batista ( Foto: André Costa )
 por André Costa - Colaborador
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Juazeiro do Norte. Eleito o cearense do século em 2001 e escolhido como um dos "100 maiores brasileiros de todos os tempos" em 2012, Padre Cícero Romão Batista, considerado Santo pelos devotos nordestinos, há décadas é alvo de invariável dicotomia de juízos. Se entre os romeiros é quase incontestável, entre pesquisadores e estudiosos, o 'Padim' que ontem, dia 24, completou 173 anos de seu nascimento, é figura controversa e fonte de inesgotável estudo.

Em dezembro de 2015, a Diocese do Crato divulgou uma carta-mensagem de sete páginas redigida por expressa vontade do Papa Francisco, segundo atestou o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, a qual trouxe à luz a reconciliação da Igreja Católica com o Padre Cícero, que desde 1889 sofria perseguições diante do propalado milagre do sangramento da hóstia ofertada pelo sacerdote à beata Mara de Araújo.

Após torná-la pública, alguns pesquisadores e especialistas em processos canônicos contestaram o conteúdo da carta. "Em momento algum o Vaticano fala em reabilitar, reconciliar ou perdoar o Padim Ciço. Apenas realça as qualidades de Cícero, nada mais", diz o advogado, escritor e estudioso Lauro Barretto.

A não divulgação da carta em agências de notícias do Vaticano e o fato de o papa não ter assinado o documento também são questionados. "Não há documento assinado pelo Papa Francisco dizendo claramente que a Igreja se reconciliou com Padre Cícero", pontuou o historiador e professor José Sávio Sampaio.

Segundo Paulo Machado, autor do livro "Padre Cícero entre os rumores e a verdade", a "reconciliação e o perdão podem até ocorrer no futuro, mas, no momento, com todo respeito a quem pensa diferente, não houve". O estudioso e escritor Daniel Walker questiona os argumentos adversos. Entende que a carta representa a reconciliação.

"Não ser assinada pelo Papa é irrelevante, pois o cardeal que a assinou tinha credenciais para representar o pensamento de Sua Santidade sobre o assunto. É verdade que a palavra reconciliação não está explícita, mas os argumentos contidos induzem a tal porque as virtudes do Padre Cícero foram evidenciadas, sua pastoral foi elogiada e as romarias foram exaltadas como sendo bons frutos", diz o historiador. Walker ressalta ainda que "a imprensa oficial do Vaticano não divulgou o assunto, mas também não se pronunciou condenando quem divulgou a carta como sendo de reconciliação".

Interrogação

Ao citar um trecho do livro "Padre Cícero, o Patriarca de Juazeiro", escrito no século passado por Monsenhor Azarias Sobreira, em que o autor diz "O Padre Cícero é um cruciante ponto de interrogação", Walker lembra que "assim como para muitos historiadores, Padre Cícero é um suposto santo, um suposto líder, um suposto milagreiro, agora é um suposto reconciliado. Sua via-crúcis parece não ter fim", diz ele, ao recordar que o 'Padim' anteviu dizendo "Tomei o propósito, desde o começo desta enorme perseguição contra mim, de entregar tudo a Deus e a Nossa Senhora das Dores e não me defender de coisa alguma".

A historiadora e irmã belga, Annette Dumoulin, residente em Juazeiro do Norte deste 1976, também é contrária aos que consideram que a carta não diz respeito à reconciliação. A historiadora aconselhou "um pouco mais de leitura teológica" e afirmou que Igreja fez mais do que reabilitar o Padre Cícero. "A Igreja não perdoou porque não tinha nada a perdoar e sim corrigir uma visão errada e negativa que tinha do Padre Cícero no passado. Ela não reabilitou, pois as medidas disciplinares valem apenas neste mundo e não no outro".

Ainda conforme sua análise, "a reconciliação com Padre Cícero é muito mais bonita, é linda! Não se trata de beatificação, de canonização. O Papa fez um ato de justiça não somente em relação ao Padre Cícero, mas, também, em relação aos seus romeiros tratados injustamente de fanáticos e ignorantes.

Já para a professora da Universidade de Berkeley (USA), Candace Slater, não há dúvida acerca do real objetivo expresso na carta, senão a reconciliação. Ela ressaltou que "outra carta, não divulgada pela Diocese do Crato, utiliza o termo reconciliação, diferente da segunda. Mas, mesmo que não utilizasse, o que nela está escrito, não resta dúvida", concluiu Slater.

Opinião do especialista

Uma nova ótica de observação

Durante muito tempo, principalmente nos livros, Padre Cícero foi sempre analisado de formas opostas: de um lado, sendo atacado com radicalismo por quem não lhe reconhece nenhum mérito; de outro, sendo exaltado com exagero por quem lhe confere muitas qualidades. Ultimamente, porém, depois que os cientistas sociais passaram a estudá-lo, sua figura real começou a ser delineada dentro de uma nova ótica de observação e análise.

E, ao que tudo indica, nessa nova visão, ele é mostrado com os defeitos comuns aos homens normais e as virtudes inerentes aos homens extraordinários. Tudo dentro da racionalidade, conduzido sem paixão. Toda a produção bibliográfica em torno do Padre analisa sua vida em dois aspectos: sua vida política e sua vida religiosa. Para efeito de estudo e apreciação, a bibliografia "ciceropolitana" pode ser dividida em duas vertentes de natureza cronológica: a antiga e a recente.

A antiga foi produzida em sua maior parte por memorialistas e escritores sem formação em História, muitos deles mais animados de sentimentalismo do que por cientificidade. Mesmo assim, alguns livros publicados dentro dessa vertente são até hoje considerados verdadeiras referências no assunto, pela densidade de informações neles contida. Outros, porém, foram escritos em momento de raiva, de paixão, de bajulação e pouco ou nada acrescentaram ao estudo do fenômeno, sendo então pura perda de tempo, papel e tinta.

No filão editorial mais antigo, Padre Cícero como político é mostrado na maioria das obras como um verdadeiro Coronel, chefe político participante de conchavos e figura representativa do atraso. E como religioso ele é geralmente tipificado na categoria de herege, fanático e fanatizador, embusteiro e apologista de milagres que não passam de superstições vãs. A vertente editorial mais recente, entretanto, foi produzida em sua maior parte por historiadores de graduação universitária, cientistas sociais, teólogos etc., e muitos dos livros editados são dissertações e teses acadêmicas, escritas dentro de rígidas normas de pesquisa e sempre que possível com neutralidade científica.

Dentro desse filão editorial, é possível encontrar, na maioria das obras, um Padre Cícero político como um verdadeiro líder, profundamente devotado à causa do seu Juazeiro, em função do que tudo fez para que o lugar não fosse apagado do mapa do Brasil. Daí se justificando suas investidas políticas partidárias, as quais terminaram contrariando seus adversários. E como religioso, na maioria dos livros atuais, ele não aparece mais como fanático, e sim como ícone de religiosidade popular. E para reforçar esse conceito moderno que lhe atribuíram, a sua recente reabilitação com a Igreja põe por terra qualquer qualificativo pejorativo de cunho religioso que algum leigo ou religioso queira lhe aplicar.

De fato, desde o fim de 2015, conforme está na carta enviada do Vaticano, com a provação do Papa Francisco e assinada pelo Cardeal Pietro Parolin, a Igreja acolhe novamente o Padre Cícero, ressaltando os bons frutos que hoje podem ser vivenciados pelos inúmeros romeiros que, sem cessar, peregrinam a Juazeiro, atraídos pela figura desse sacerdote. E procedendo dessa forma, a Igreja pode perceber mais claramente a repercussão que a memória do Padre Cícero Romão Batista mantém, no conjunto de boa parte do catolicismo deste País.

Assim, o mais importante é que, respaldado pelos estudos sérios dos cientistas atuais e reconciliado com sua Igreja, surge um novo Padre Cícero, de biografia repaginada, pois ela foi devidamente reconsiderada pela História através de julgamento justo feito pelos acadêmicos e pela alta cúpula do Vaticano. Falar mal do Padre Cícero agora, não tem mais sentido algum. Claro que ele será sempre um nome polêmico, para o qual convergem amor e ódio, e da sua pessoa cada um pensa como quiser; mas seus erros foram julgados e ele, exaltado. Pela História e pela Igreja.

Daniel Walker - Professor, escritor e jornalista

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