sábado, 11 de março de 2017

CRISE HÍDRICA Poços: construção requer cautela



Apesar de amenizarem a escassez de água, são necessários estudos para resultados positivos




Distrito de Riacho Doce, em Quixadá, é abastecido por poço profundo. Um total de 120 famílias depende do equipamento para ter acesso à água ( Fotos: Alex Pimentel )

Pelo solo antes seco do sertão cearense tem escorrido a esperança das chuvas recentes dos meses de janeiro, fevereiro e março. A paisagem marrom de algumas regiões do Ceará está, aos poucos, ganhando tons de verde, e açudes como o Castanhão e o Maranguapinho receberam aportes, chegando este segundo a sangrar, no último dia 4. Apesar de certo alívio, o sinal de alerta ainda permanece, e a preocupação com a crise hídrica persiste. Uma das ações intensificadas pelo Governo do Estado para minimizar os impactos da escassez de água é a construção de poços, equipamentos que podem impedir o colapso hídrico, mas exigem cautela.

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Nos últimos dois anos, mais de três mil poços foram construídos em diversas regiões rurais e urbanas do Ceará, sendo 1.247 em 2015 e mais 1.972 somente no ano passado. De acordo com a Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh), cerca de 75% deles possuem vazão igual ou superior a 500 litros de água por hora, contribuindo para impedir o colapso hídrico em pequenas regiões.

As perfurações constam entre as medidas definidas pelo Plano Estadual de Convivência com a Seca, apresentado pelo governador Camilo Santana em fevereiro de 2015. Conforme a Secretaria de Recursos Hídricos do Estado (SRH), o investimento em medidas de combate à seca, como construção de poços, instalação de chafarizes e dessalinizadores, atinge RS 62,6 milhões.

Conforme explica o titular da Superintendência de Obras Hidráulicas do Ceará (Sohidra), Yuri Castro, o órgão prioriza a instalação dos poços em distritos e comunidades que estão com o abastecimento comprometido ou em colapso. "As demandas chegam por meio das gestões municipais e enviamos um geólogo para identificar fendas nas rochas, estudar e escolher o local onde existe maior possibilidade de haver água", ressalta o gestor.

No Ceará, cerca de 85% das regiões são compostas por solos cristalinos, rochas que não absorvem água e, consequentemente, dificultam a obtenção do recurso. "Existe 30% de probabilidade de a perfuração ser frustrada, ou seja, o poço resultar em uma vazão inferior a 500 litros por hora. Dessa forma, é inviável até abastecer uma comunidade de pequeno porte", explica Castro, revelando que só uma vazão mínima de dois a três mil litros por hora é considerada adequada para essas regiões.

Reserva

Apesar das dificuldades naturais, o Ceará possui uma reserva rica em águas subterrâneas no chamado aquífero do Canto dos Pintos, localizado no Sertão de Crateús, que deve garantir o abastecimento da região em caso de crise. Conforme a SRH, foram construídos quatro poços-piloto para testar o potencial de vazão na área, ação que resultou em saldo positivo: cada um deles oferece cerca de 10 mil litros de água por hora.

O manancial subterrâneo, porém, está protegido para futura exploração, pois as águas superficiais das adutoras já em operação nos açudes de Araras e Carnaubal "abastecem tranquilamente", além de Crateús, os municípios de Nova Russas, Ipu e Pires Ferreira. Além disso, para o aproveitamento da reserva do Canto dos Pintos, a Pasta afirma que será necessária a construção de pelo menos mais 30 poços e uma nova adutora de 30km. As ações, entretanto, não têm previsão de investimento nem concretização.

Além dos estudos técnicos para a construção dos poços, é preciso um acompanhamento contínuo para o não esgotamento do recurso hídrico em determinadas regiões. Conforme a Sohidra, a manutenção dos equipamentos é entregue à Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) ou às gestões municipais de cada localidade, que devem monitorar as instalações e o funcionamento. "Poços que tinham boa produtividade vão diminuindo a vazão no decorrer da exploração. Se forem explorados demais, só uma nova recarga de chuvas pode recuperá-los", explica o superintendente.

A água oriunda dos poços profundos chega às residências por meio de chafarizes, estruturas capazes de abastecer até 70 mil casas em pequenas comunidades, segundo dados da Sohidra. Em distritos maiores, o líquido é direcionado ao sistema de abastecimento público. Já em locais como o município de Boa Viagem, no Centro do Estado, a distribuição é mista. "Além de a água ir direto para as torneiras, existem 30 chafarizes na cidade bombeando a água dos poços", contabiliza Yuri Castro.

Sertão

No distrito de Riacho Verde, a 15km do Centro de Quixadá, no Sertão Central cearense, cerca de 120 famílias dependem do poço profundo perfurado no entorno da vila para obter água. As casas contam com hidrômetros e até uma Estação de Tratamento de Água (ETA), mantida pelo Estado. Apesar disso, segundo o presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais de Riacho Verde, Francisco Antônio Rodrigues, a vazão de aproximadamente 3 mil litros por hora não é suficiente para atender todas as residências. Outros seis poços foram perfurados na área, mas sem vazão positiva.

Apesar da estiagem prolongada, a vida dos moradores de Riacho Verde melhorou. "Não precisamos mais utilizar o balde para pegar água. Hoje, ela vai direto do poço para as torneiras", esclarece. Cada residência paga em torno de R$ 15 mensais pela aquisição de até 10 mil litros de água para consumo humano.

A medida que serve bem ao Interior não beneficia a Capital. De acordo com a Sohidra, além de contar com grandes regiões cristalinas, Fortaleza tem o lençol freático altamente contaminado por resíduos químicos e lixo, impossibilitando o uso das águas subterrâneas. Em alguns prédios públicos, como hospitais e escolas, porém, o abastecimento é garantido por poços profundos, "aliviando" a demanda do sistema coletivo da Capital.

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