terça-feira, 10 de novembro de 2015

Lunga, o eterno poeta do Cariri


Em 1927 nascia no Sítio Gravatá, na zona rural de Caririaçu, Joaquim dos Santos Rodrigues. Dezesseis anos mais tarde, uma vizinha daria o apelido ao homem que se tornaria um dos principais símbolos da cultura popular cearense. Joaquim, passou a ser chamado de Calunga. Tempos depois, o apelido resumiu-se para Lunga. O diminutivo iria contrapor-se com a trajetória de vida no aumentativo que estaria por vir.

Por tradição, Seu Lunga era um poeta e não tinha um só sepultamento de alguém da família que este deixasse de se colocar num ponto estratégico e de boa visibilidade para fazer a sua saudação póstuma.

No dia da sua morte, 22 de novembro de 2014, há um ano, para evitar o que poderia ser uma “injustiça”, o jornalista Demontier Tenório se tornou o responsável pela homenagem ao parente logo após a missa de corpo presente no Centro de Velório Anjo da Guarda. Entretanto, foi rápido em suas palavras afirmando que “não adiantava falar de Seu Lunga, pois todos já o conheciam bem e muito menos repetir as mesmas palavras de conforto que ele estendia aos demais familiares, pois este era um homem permanentemente confortado diante de tudo que ocorria”.

Demontier Tenório é filho de Antônia Tenório de Oliveira, prima legítima de Seu Lunga. A ausência do sobrenome é explicada por um erro do cartório. “Seu nome ganhou 'Santos' , mas que deveria ser 'Tenório', pois seu avô era parente do famoso Cabo Tenório, homem temido nas Alagoas”, detalha o jornalista.

“Ele não gostava de perguntas bobas. Tão logo fosse feita alguma pergunta mal elaborada ou, de cunho irônico, Lunga respondia firmemente”, ilustra o pesquisador. Demontier

Ao lembrar do primo segundo, Demontier adverte que o rótulo de “ignorante” atribuído a Lunga “não era verdade”. Segundo ele, Seu Lunga, “era um homem trabalhador, sincero e de bom caráter”, predicados corroborados pelo professor e pesquisador Daniel Walker de Almeida Marques, primo do ex-ator José Wilker, cujos pais foram vizinho de Seu Lunga por várias décadas. Daniel avalia que a fama de carrancudo do mítico personagem juazeirense surgiu e ganhou força no ferro-velho em que Lunga trabalhava, situado na rua Santa Luzia.

“Ele não gostava de perguntas bobas. Tão logo fosse feita alguma pergunta mal elaborada ou, de cunho irônico, Lunga respondia firmemente”, ilustra o pesquisador. Demontier lembra que todos os dias o primo realizava o trajeto a pé ou de bicicleta entre os cinco quarteirões que separavam a residência e o local de trabalho de Seu Lunga. A sucataria acanhada, de paredes desgastadas pela ação do tempo e repleta de “trecos”, conforme classifica Walker, tornou-se uma espécie de ponto turístico de Juazeiro do Norte.

Apesar de Walker garantir que Seu Lunga ficava envaidecido com a fama, o comerciante demonstrava não se acostumar com “o título de celebridade” conquistado, sobretudo, após a publicação de cordéis escritos pelo poeta cordelista Abraão Batista. A comerciante Cícera Lucena Arraes, funcionária de uma loja há poucos metros da sucata, conta que era vagarosa e cautelosa aproximação daqueles turistas que almejavam um registro com o “homem mais zangado do mundo”, título do cordel lançado em 1987, por Abraão e que foi alvo de ação judicial movido pelo próprio Lunga.

“Era uma cena engraçada. Muitos chegavam aqui na rua, ficavam olhando de longe e aos poucos se aproximavam pedindo uma foto. A impressão é que a fama dele já havia se espalhado Ceará afora e muitos tinham medo”, lembra com bom humor. Lunga não se dava ao trabalho de levantar de seu assento velho de madeira para “pousar” para as fotografias. Lá mesmo os turistas encostavam para foto. “Ele passava o dia todo sentado, observando o trânsito e assistindo sua pequena TV [uma Semp Toshiba 10 polegadas]”, acrescenta Cícera.

“Se alguém reclamasse que estava caro, ele fazia questão de informar onde poderia encontrar mais barato, porém, não baixava o preço”, relata Demontier Tenório.

Se Lunga não se importava com as fotos, em que pese o momento de tensão vivido por aqueles preocupados com a “fama” do comerciante, o mesmo não se podia dizer das barganhas feitas aos produtos expostos na Sucata. Se a regra dos comerciantes é agradar ao freguês em primeiro lugar, é de perguntar como Seu Lunga conseguiu manter seu negócio em funcionamento por décadas. Solicitar a redução de preço era, na certa, algo que o deixava desconfortável. Ele dizia ter um preço único desde 1950. “Se alguém reclamasse que estava caro, ele fazia questão de informar onde poderia encontrar mais barato, porém, não baixava o preço”, relata Tenório.



Meses antes da morte de Seu Lunga, um grupo de fortalezenses de uma mesma família esteve em Juazeiro do Norte e, “claro”, foi até o ferro-velho. Liduina Barbosa revela que em seu imaginário, “Lunga era rude, extremamente grosseiro e mal-educado”, tal qual alimentava a literatura de cordel. “Não achei nada disso. Apesar de ele não ter levantado da cadeira para falar conosco, não faltou com educação, não foi ignorante e até teve paciência para tirar várias fotos com todos nós”, relata a secretária.


Daniel Walker não só confirma “os bons modos de Seu Lunga”, como revela: “Ele era bastante prestativo. Sempre que solicitado, fazia questão de atender, com rapidez”. Apesar de considerar o antigo vizinho como um “homem agradável”, o pesquisador admite: “Ele não tinha o riso fácil, mas isso não é sinônimo de ignorância”. O professor e pesquisador cearense de cultura popular Renato Casimiro é outro que discorda do que foi atribuído ao “poeta”, como Lunga gostava de ser reconhecido.

“Mesmo que Lunga tivesse a tolerância zero com algumas indagações, muitas delas feitas única e exclusivamente para ironizar e até ridicularizá-lo, não chegavam a ser tão absurdas como o que foi escrito com tom pejorativo em muitos cordéis, contribuindo para que a fama de carrancudo se espalhasse”.

O cantor cearense Fagner possui uma teoria sobre o folclórico mau humor de Seu Lunga: “Existem vários outros ´Seus Lungas´ por aí. São pessoas que no fundo são bem-humoradas, mas não têm paciência nenhuma”. Outra teoria é erguida por Daniel Walker. O pesquisador considera que “80% das piadas e causos atribuídos a ele já existiam, as pessoas apenas mudaram o personagem, aproveitando a carona da fama de ranzinza”.

Uma das piadas atribuídas a Lunga, tornou-se conhecida nacionalmente. Reza a lenda que certa vez Lunga caminhou alguns metros até um bar próximo a sua residência, nas imediações da Capela do Socorro, onde está sepultado oo corpo de Padre Cícero, e pediu que o proprietário colocasse uma música. Consternada, a dona teria respondido: “Não posso. Meu marido morreu”. Seu Lunga, irritado, retrucou: “E ele por acaso levou os discos pro caixão?”.

O estabelecimento foi palco, ainda, de outras piadas. Seu Lunga teria ido buscar o refrigerante com a esposa e a filha, quando o dono do bar perguntou: “É a família, Seu Lunga?”. “Não, são as minhas duas putas”, teria dito Seu Lunga. O proprietário do bar, Antônio Deusimar, garante que as histórias são falsas e que Seu Lunga não costumava ir lá, apesar de passar em frente ao estabelecimento todos os dias.

No entanto, o mundo do poeta não girava tão-somente em torno da rispidez e mau humor. Uma forma – quase infalível – de arrancar um sorriso, ainda que tímido, de seu rosto, era pedir que declamasse uma de suas 20 poesias. Aliás, era um dos raros momentos que tirava Lunga do conforto de seu banquinho da Sucata. Para declamar Lunga ficava de pé e estufava o peito.

Ao externar sua estima por Lunga, Casimiro – o qual contabilizou 78 títulos de cordéis contando a história de Lunga – questiona as razões pelas quais o amigo de longa data do seu pai não ter sido lembrado como poeta, comerciante ou até mesmo como agropecuarista, uma vez que Seu Lunga se deslocava duas vezes por mês até o Sítio Pedrinhas, zona rural de Juazeiro do Norte, o qual mantinha algumas cabeças de gado.

Seu Lunga rendeu 78 títulos de cordel para Casimiro. As obras contavam a história do comerciante e poeta do Juazeiro do Norte

Lunga também possuía um lado religioso. Demontier Tenório lembra que o primo era “homem católico e devoto do Padre Cícero, o qual esperava ver reabilitado antes de morrer”. Padre Cícero, prefeito de Juazeiro do Norte por 15 anos, teria servido de inspiração para que Lunga se aventurasse na vida política.

Em 1988 entrou na disputa para o cargo de vereador de Juazeiro do Norte. Filiado ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Lunga obteve 273 votos, figurando na 56ª, sem conquistar o pleito. Um dos poucos assuntos que não despertavam o interesse do comerciante era o futebol.

“Lunga sobreviverá à própria morte. Vai entrar para a história como personagem folclórico do Nordeste e será tão conhecido como Padre Cícero” Daniel Walker, professor e pesquisador

“A única vez que assistiu a um jogo de futebol ele se decepcionou”, lembra Demontier. Foi entre Juazeiro e Crato semanas após ter chegado à terra de Padre Cícero. "Só deu pancadaria. O campo tava em obras e houve uma chuva de concreto e banda de tijolo. Nunca esqueci aquela cachorrada", descreveu Lunga a um familiar.

Por fim, Walker afirma que “Lunga sobreviverá à própria morte. Vai entrar para a história como personagem folclórico do Nordeste e será tão conhecido como Padre Cícero”. Alguém dúvida?

Fonte: Diário do Nordeste

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