domingo, 30 de julho de 2017

Escolas profissionalizantes destacam-se no interior do CE



A modalidade, de tempo integral, possui as maiores aprovações no Enem entre as escolas públicas fora da RMF



Entre as escolas públicas do Interior, a mais bem colocada é a Adriano Nobre, de Itapajé
00:00 · 29.07.2017 / atualizado às 18:58 por Renato Sousa - Repórter
Das dez escolas públicas melhor colocadas no Enem, sete eram em tempo integral, todas na modalidade profissionalizante

Fortaleza. A educação em tempo integral tem sido um dos carros-chefes da política de Educação no Ceará, desde a administração Cid Gomes (PDT), continuada por seu sucessor, Camilo Santana (PT). Recentemente, o Palácio do Abolição decidiu transformar a modalidade em uma política de Estado, por meio de legislação sobre o assunto. "O objetivo da Lei é transformar a ação em uma política pública de Estado. Independentemente dos governos futuros, que essa seja uma ação de governo", declarou o governador, no último dia 20, durante a cerimônia de assinatura da nova legislação.

No Interior, a educação em tempo integral tem destacado-se. Foram essas escolas que tiveram os melhores resultado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015. Das dez escolas públicas melhor colocadas no ranking organizado pelo portal G1 com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia ligada ao Ministério da Educação (MEC) e responsável pela realização da prova, sete eram em tempo integral, todas na modalidade profissionalizante. Os colégios Militar, da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros, todos em Fortaleza, completam o ranking.



Entre essas escolas profissionalizantes, a mais bem colocada é a Adriano Nobre, de Itapajé, na região Norte. Segundo Silvandira Mesquita Sousa, diretora do estabelecimento, o grande responsável pelo bom desempenho do espaço é a comunhão de esforços. "Eu atribuo principalmente ao trabalho em equipe, de forma muito coletiva. Os professores abraçam mesmo a causa", declara. Ela destaca como uma das características peculiares da escola é o seu currículo, que não se limitaria aos conhecimentos acadêmicos. "Temos disciplina de projeto de vida, empreendedorismo, mundo do trabalho, formação cidadã...", exemplifica. A gestora aponta que esses conteúdos são trabalhados de maneira transversal, perpassando por outras matérias.

Esses temas também estão presentes no currículo dos alunos da escola profissionalizante Lysia Pimentel Gomes Sampaio Sales, em Sobral, também na região Norte e com bons resultados no Enem. A diretora da instituição, Ana Emília Pinheiro, destaca a disciplina exigida na escola. "Quando a gente faz muito a vontade deles (referindo-se aos alunos), acabamos esquecendo-nos das necessidades", explica. Como exemplo disso, ela aponta que, juntamente com as escolas profissionalizantes, as escolas militares - sejam ligadas às Forças Armadas, sejam ligadas à Polícia Militar e aos Corpos de Bombeiros - também costumam manter uma trajetória de ótimos resultados em todos os testes a que se submetem.

Segundo a diretora, as opções de atividades para os alunos dentro da escola são inúmeras. Entretanto, cada uma tem o seu momento adequado para acontecer. "Ninguém aqui faz nada de extraordinário. Apenas o que tem que ser feito", explica.

Ambas as gestoras destacam que todos os esforços só fazem sentido se eles somarem-se aos dos estudantes. "Os nossos alunos têm muita força de vontade", explica Silvandira Sousa, de Itapajé. Já sua colega de Sobral afirma que, para estudar no Lysia Pimentel, é preciso gostar, ao menos um pouco, de estudar. Só vem para cá o aluno que gosta ao menos um pouco de estudar. "O aluno que não gosta não aguenta fazê-lo durante nove horas por dia", explica.

Não é só estrutura

Entretanto, apesar de as duas diretoras garantirem que suas escolas contam com toda a infraestrutura necessária para bem desempenhar seus projetos pedagógicos, há quem diga que isso não é uma característica geral. Segundo Rosimar Machado e Rocha, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (Faced/UFC), em diversos estabelecimentos de ensino, encontra-se dificuldade em efetivar um ensino que articule a educação científica com a artística e a esportiva. "Nem toda escola de tempo integral tem essa educação integral", diz.

Para a professora, a educação em tempo integral é importante, entretanto, apenas o horário diferenciado não deve ser tratado como uma solução para todos os problemas. "O tempo integral tem perspectivas muito positivas, mas é necessária uma relação muito estreita com o próprio projeto educativo", que, segundo ela, precisa ser capaz de envolver os alunos. No caso da educação profissionalizante, aponta que existe, muitas vezes, um descolamento entre a oferta de cursos e a demanda do mercado de trabalho local, o que dificulta a inserção do formando.

A Secretaria Estadual de Educação (Seduc) discorda. Por meio de nota, a Pasta afirma que a oferta dos cursos técnicos "leva em conta os arranjos produtivos locais, as possibilidades de campos de estágio e também de inserção no mercado de trabalho". O texto admite, porém, que parte não consegue ser absorvida pelo mercado local. A Seduc também diz que todas as unidades contam com infraestrutura para a formação científica e também incluem formação sócioemotiva. O texto, porém, não cita equipamentos para educação artística ou esportiva.

Nova lei

Segundo Idilvan Alencar, secretário estadual de Educação, com a nova legislação do tempo integral, assegura-se que essas políticas bem sucedidas deixem de ser fruto da vontade política dos gestores e passem a ser políticas de Estado. "Não é mais sobre o que quer o governador ou o gestor. É uma lei estadual", diz. A legislação não estabelece metas para a expansão da modalidade de ensino. Entretanto, o secretário garante que, ainda neste semestre, a meta para o ano que vem deve ser anunciada, e objetivos para um prazo maior também. Segundo Alencar, os critérios devem priorizar áreas com maior vulnerabilidade social de centros maiores, como Caucaia, Maracanaú, Sobral e Juazeiro do Norte, além da Capital, Fortaleza. "É o que determina a portaria do MEC que regulamenta o ensino em tempo integral", diz.

Alencar afirma que a nova legislação já abarca certos aspectos da Nova Lei do Ensino Médio, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Michel Temer (PMDB) em fevereiro último. Entretanto, segundo ele, o Ceará adianta-se ao País, já que o texto só passa a ter validade após a aprovação da Base Nacional Curricular Comum, que ainda não aconteceu.

O gestor também mostra satisfação com os resultados da modalidade no Enem. Segundo ele, o crescimento de 2015 a 2016 foi de mais de 25%, indo de dez mil aprovações para mais de 12 mil. A expectativa é de que, neste ano, o número cresça ainda mais, atingindo os 15 mil aprovados no exame.

O próprio governador Camilo Santana não costuma desperdiçar oportunidades de exaltar os resultados do projeto. "Há um esforço muito grande de professores, diretores, coordenadores, pais e alunos. E a gente fica muito feliz por ver os avanços que o Ceará tem alcançado nos resultados do acesso de alunos de escolas públicas às universidades. Temos 25 alunos que passaram em cursos de Medicina no Estado. Isso é algo muito significativo", destacou em entrevista em março, após se encontrar com estudantes aprovados no exame.
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Motivos dos bons resultados, segundo as diretoras

Disciplina: Ana Emília Pinheiro, do Lysia Pimentel, em Sobral, afirma que é central que todos estejam cientes de suas responsabilidades, o que inclui alunos e professores. "Não adianta exigir de um e não exigir do outro", diz.

Envolvimento da família: Silvandira Sousa, da escola Adriano Nobre, em Itapajé, afirma que a participação dos pais no projeto educacional é fundamental. "A família é uma grande aliada no processo de aprendizagem. Aqui, ajudando seus filhos nas atividades, em parceria com a escola".

Conscientização dos alunos: Ambas as gestoras dizem que não é possível bons resultados se os estudantes não trabalharem por eles. "Os nossos alunos têm muita força de vontade", declara Silvandira. Ana Emília concorda. "A gente coloca na cabeça deles (alunos) que a única maneira de se sobressair é estudando", diz.

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