Aeris já demitiu mais de 5 mil trabalhadores. Sindicato organiza audiência pública para reverter situação
Escrito por
Paloma Vargaspaloma.vargas@svm.com.br
24 de Fevereiro de 2025 - 10:00
Negócios
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Legenda: Fabricação de pás eólicas enfrentam queda de clientes e alta variação do preço do dólar
Foto: Divulgação/Aeris
O Sindicato dos Metalúrgicos do Ceará (Sindmetal-CE) aponta a entrada da empresa chinesa Sinoma Blade no mercado de pás eólicas como o grande motivo da crise da empresa brasileira Aeris. A cearense, nessa sexta-feira (21), iniciou o processo de homologação das 700 demissões ocorridas neste mês.
O trabalho deve ser feito até o próximo dia 28 e está sendo acompanhado por dois homologadores do Sindmetal-CE. Segundo a entidade de classe, mais de 5 mil funcionários já foram demitidos pela empresa ao longo da crise no setor.
Um corte de 1,5 mil funcionários ocorreu em maio de 2024, após rompimento de contrato com a companhia europeia Siemens Gamesa.
Segundo o presidente do Sindmetal-CE, Francisco Silveira, o mercado cearense não tem fôlego “para absorver toda essa mão de obra qualificada”. “Alguns trabalhadores que saíram no primeiro momento (em maio do ano passado) continuam parados”, revela.
Questionado sobre o que poderia estar causando os problemas financeiros e demissões, Silveira é taxativo: “O problema que enxergamos a olho nu foi a entrada da empresa chinesa de pás eólicas com tratamento diferenciado”, diz ele se referindo aos benefícios fiscais concedidos à Sinoma na Bahia.
A Sinoma Blade se instalou em 2024 em Camaçari, na Bahia, e tem tomado 90% do mercado da Aeris, conforme o presidente do Sindmetal-CE, por conta do preço que está praticando.
Falei com alguns clientes da Aeris que foram para a Sinoma. Eles dizem que deixaram a Aeris por preço”.Francisco Silveira
presidente do Sindimetal-CE
Venda da Aeris para a Sinoma
Outro ponto confirmado por Silveira foi a tentativa da Sinoma Blade em comprar a Aeris. Esse contato teria sido feito no início deste ano e também foi confirmado, na época, pela própria empresa cearense. “Só que falam que a proposta foi, como se diz no popular, 'a preço de banana'”, diz o presidente da entidade sindical.
Em dezembro do ano passado, a Aeris confirmou em fato relevante que os controladores da empresa cearense estavam em tratativas com a Sinoma, mas que as negociações não avançaram.
"Ainda, segundo informado pelos controladores, não há neste momento negociações avançadas em curso com a Sinoma Blade. A Companhia aproveita para reforçar que sua administração permanece trabalhando nas medidas voltadas à otimização de sua estrutura de capital, conforme já divulgadas ao mercado".
Entenda a situação da Aeris
A reportagem procurou a Aeris para tentar entender o que estaria ocorrendo e quais as explicações para a crise. Porém, através da sua assessoria de comunicação, foi dito apenas que não foram realizados novos desligamentos nesta sexta-feira (21). “A empresa realiza, nesta semana, as homologações dos últimos desligamentos ocorridos no início do mês”.
Sobre o mercado e o posicionamento da empresa chinesa, a Aeris disse que não irá se posicionar.
A reportagem também buscou o contato da empresa Sinoma Blade, mas não obteve sucesso. O espaço fica aberto para a manifestação da empresa em questão.
A Aeris, que tem a sua planta no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, vem enfrentando resultados financeiros negativos.
A empresa convocou assembleia com investidores para prorrogar o pagamento de juros remuneratórios, inicialmente previsto para 15 de janeiro, por mais 30 dias. Um primeiro adiamento foi consentido anteriormente.
A administração da companhia também pedirá alteração de prazos das debêntures (títulos de dívidas emitidos por empresas de capital aberto na bolsa) e alterações no cronograma de juros.
Em outra oportunidade, a empresa falou ao Diário do Nordeste que “a companhia cearense fechou o terceiro trimestre de 2024 com prejuízo de R$ 56,7 milhões”.
“A receita teve redução de 13% e atingiu o menor valor desde 2022. Entre os motivos apontados, além da queda da demanda, está o descomissionamento de duas linhas”.
Offshores podem ser excelente oportunidade de mercado
O dirigente do Sindienergia, Bernardo Viana, destaca que a empresa é um importante ativo da indústria de energia cearense, com quadro de funcionários que já chegou a oito mil trabalhadores.
Ele pondera haver uma excelente oportunidade de mercado a vista: a potencial indústria eólica offshore, que teve a regulamentação aprovada no fim de 2024 e pode começar a sair do papel nos próximos anos.
“O problema disso é o timing. É qual momento realmente vão começar as obras e a Aeris vai precisar ajustar sua produção para atender a cadeia eólica no mar. De fato, existem muitos projetos no Brasil, que podem garantir 10 anos sem crise para o setor. Mas no curto prazo, realmente é bem delicado”, avalia.
Audiência pública para tratar da questão
Preocupados com os 2,2 mil trabalhadores demitidos pela Aeris do ano passado para cá, o Sindmetal-CE está buscando realizar uma audiência pública.
A ação visa dialogar com o Governo do Estado, Sistema Nacional de Emprego e o Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (Sine-IDT), deputados e empresários para buscar uma reação do Ceará diante da crise no setor.
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