CARLOS ALBERTO ALBUQUERQUERESPONSÁVEL PELO BLOG CONEXÃO REGIONAL

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sexta-feira, 28 de junho de 2024

‘Me humilhava e agredia’: metade das violações contra idosos no Ceará é praticada pelos filhos


Por mês, mais de 500 denúncias de violência contra esse público no Estado chegam ao Disque 100
Escrito por Theyse Viana , theyse.viana@svm.com.br

Legenda: Falta de instituições de acolhimento está entre fatores para escalada de violações contra idosos
Foto: Theyse Viana




“Ele não me machucava… Só com palavras. Ela deu pra me agredir. Me empurrava, me segurava pelas orelhas e sacudia, me humilhava.” As cenas de abuso não deveriam, nem de longe, se referir a isso, mas descrevem o inimaginável: atitudes de filhos contra a mãe idosa.

Apesar da “fumaça na vista” causada pela catarata, as imagens do que viveu brotam nítidas na memória de Ana*, 79, ao relatar, direto de uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) em Fortaleza, as violências que sofreu de alguns dos 15 filhos que pariu.

Assim, ela se soma a uma estatística perversa: no Ceará, entre janeiro e o dia 16 deste mês, mais de 3 mil denúncias de violência contra a pessoa idosa foram feitas à Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (Disque 100). Do total, 1.570 foram cometidas pelos próprios filhos.


9.467
violações contra pessoas acima de 60 anos no Ceará foram registradas no Disque 100 no primeiro semestre de 2024, delatadas por meio de 3.144 denúncias.




Legenda: Ana* está em um abrigo privado de Fortaleza após sofrer violações pelos filhos
Foto: Theyse Viana



Para Ana*, que terá identidade preservada, as violências se acumulam na biografia. Começar a trabalhar aos 7 anos em lavouras de cacau, porém, nem entra na lista do que “dói muito”: esta é composta, principalmente, pelos maus tratos praticados pelos filhos.

“Eu morava em outro estado e vim pra visitar meu filho por 15 dias. Fiquei 2 anos. Morava com ele e a mulher, ele se separou dela e me deixou lá. Filho é igual nambu: só fica com a mãe até criar pena. Ele era grosseiro demais. Eu me sentia muito, muito mal”, relembra a aposentada, com uma fala tão serena que nem combina com o que narra.


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Até o início deste ano, antes de vir para o Ceará, Ana* morava sozinha – mas, por precisar de auxílio para atividades domésticas e após ter sofrido agressões de uma cuidadora, a aposentada foi forçada a se mudar para a casa de uma das filhas.

“Um belo dia, ela entrou lá em casa catando tudo, sem minha permissão, sem perguntar minha opinião. Levou tudo pra casa dela, pra eu morar com ela. E aí deu pra me agredir”, relembra a idosa, cujo benefício previdenciário também era mexido pela filha.

Além das agressões físicas, verbais e patrimoniais, a filha chegou a restringir as saídas de casa e a comunicação da mãe com outras pessoas.



Eu não podia pegar o telefone, que ela ameaçava que se eu dissesse a alguém o que ela tava fazendo comigo, ela ia dar queixa de mim.Ana*
79 anos



As dimensões física e psicológica não são as únicas faces da violência contra a pessoa idosa. Outra violação comum que chega aos órgãos de proteção é a institucional, fortalecida pelo etarismo, como a sofrida pela aposentada Ana Lúcia Gondim, 69.

A cearense conta que uma empresa de planos de saúde cancelou o contrato dela e de colegas de trabalho devido ao avanço da idade do grupo de trabalhadores. Hoje usuária de outra companhia, ela observa a queda de coberturas e teme passar por caso semelhante.


“São situações em que a gente se vê, enquanto idoso, como o ônus da sociedade. É aviltante. O que a gente pode fazer? Em todas as áreas, o idoso é vítima da violência, do abuso: dentro de casa, na rua, ou pela hipossuficiência, por ser mais vulnerável fisicamente…”, desabafa.


POLÍTICAS PÚBLICAS FALHAS


Legenda: Etarismo e questões sociais expõem idosos a múltiplas violências
Foto: Theyse Viana



Para a assistente social Vejuse Alencar, presidente da Associação Cearense Pró-Idosos (Acepi), a raiz de diversas demandas da pessoa idosa no Ceará é a falta de políticas públicas específicas que acompanhem o envelhecimento populacional no País.

“Temos um número crescente de pessoas idosas, uma dificuldade de acessos à saúde, ao lazer, e isso faz com que essas pessoas que estão tendo o direito de envelhecer mais não tenham dignidade nesse envelhecimento. E aí começam as violações”, avalia.

A assistente social ilustra que uma falha flagrante no cenário cearense é a falta de ILPIs e de Centros Dia públicos para esse público.



Temos uma demanda crescente de idosos que estão sem poder morar só, porque precisam de cuidados continuados. A família não tem como acolher e o Estado não oferece estruturas. São as maiores queixas, famílias que nos ligam e dizem que não têm como cuidar.Vejuse Alencar
Assistente social e presidente da Acepi



É daí que decorre uma série de violações, como abandono, violência psicológica, institucional e financeira, “porque um familiar entende que o idoso não tem com quem morar, e então vai cuidar – não dele, mas do que financeiramente tem acesso”, como pontua Vejuse.

A falta de ILPIs públicas, então, aumenta o número de idosos expostos a essas problemáticas, segundo critica a presidente da Acepi. “Temos uma ILPI para todo o Estado, com capacidade para 70 idosos. É uma dívida do Estado com a pessoa idosa.”

A única ILPI pública do Ceará é a Unidade Abrigo Olavo Bilac, mantida pela Secretaria da Proteção Social (SPS). O Censo Demográfico 2022, do IBGE, mostrou que o Estado tem 1.290.533 idosos, e que aqueles com mais de 65 anos já equivalem a 10,4% da população total.


Legenda: Fachada da ILPI Olavo Bilac, em Fortaleza, o único "abrigo" estadual para idosos no Ceará
Foto: Reprodução/Google Street View



“Não temos uma ILPI pública municipal em Fortaleza. Das 56 na capital e Região Metropolitana, todas são filantrópicas ou privadas, com condições de serviços que precisam muito de fiscalização e monitoramento”, ressalta Vejuse.

“E Centro Dia, em que o idoso vai de manhã para fazer atividades e ao final do dia volta pra casa, não temos nenhum em Fortaleza. As políticas não acompanham o crescimento da população em nenhuma condição. A população idosa permanece invisibilizada”, complementa a assistente social.



Precisamos sensibilizar e chamar os gestores para a responsabilidade de atender esse público que já contribuiu muito com a sociedade, tanto de forma laboral quanto com suas histórias de vida.Vejuse Alencar
Assistente social e presidente da Acepi



O Diário do Nordeste contatou a Secretaria da Proteção Social (SPS) para saber:Se há perspectiva concreta de ampliar a rede de acolhimento, com novos abrigos;
Quais os desafios do Estado para isso;
Com que equipamentos de acolhimento públicos a população idosa do interior pode contar.

A Pasta não respondeu até a publicação desta reportagem.

A Secretaria de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS) de Fortaleza foi questionada sobre pontos semelhantes, e informou, por meio de nota, que "foi finalizada a contratação de empresa para construção de Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI)" e que, no momento, "a Prefeitura define, junto à empresa contratada, o local de instalação do equipamento".

Segundo a SDHDS, "a ILPI terá capacidade de abrigamento para 100 idosos em três níveis de assistência: grau I (idosos independentes); grau II (idosos com dependência em até três atividades de autocuidado) e grau III (idosos com dependência em todas as atividades de autocuidado e ou comprometimento cognitivo)".

A Pasta complementa ainda que "mantém um Centro Dia de Referência da Pessoa Idosa, no bairro Cristo Redentor, com atendimento especializado e oferta de cuidados a 50 pessoas. Entre os serviços ofertados estão alimentação, atividades para mobilidade e oficinas terapêuticas como complemento aos cuidados familiares. Os idosos são acompanhados por psicólogos e assistentes sociais em atendimentos individuais e coletivos, visitas domiciliares e encaminhamentos para rede socioassistencial e intersetorial".


A gestão municipal reforça que "atua na proteção social a pessoas idosas por meio do Escritório de Defesa dos Direitos Humanos (EDDH), dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) e Centros de Referência Especializados da Assistência Social (CREAS)".



"Por meio do EDDH, os casos violação de direitos contra pessoas idosas são registrados e encaminhados para os órgãos de proteção ao idoso, como a Delegacia e Promotoria especializada, CRAS e CREAS. O canal de atendimento são o Disque 100 e o número 0800 2850880."
REDE DE PROTEÇÃO

Demandas ligadas a violações dos direitos e da integridade do idoso no Ceará, sejam individuais, sejam coletivas, são tratadas pelo Ministério Público do Estado (MPCE), como explica Enéas Romero, promotor de Justiça e secretário-executivo das Promotorias de Justiça de Defesa da Pessoa Idosa e da Pessoa com Deficiência de Fortaleza.

“A demanda individual mais comum é a violação dos direitos do idoso, seja por violência ou abandono e negligência. O que acontece com alguma frequência é que o idoso fica desamparado, precisa de cuidados – o que a Constituição estabelece que é dever da família, do Estado e da sociedade”, destaca.

A mudança de perfil das famílias, pondera o promotor, tem contribuído para multiplicar as situações.



Em gerações anteriores, era comum que houvesse muitos filhos, hoje há menos pessoas para cuidar do idoso. E o cuidado é majoritariamente feminino. Isso não está sendo pensado nas políticas públicas. Temos necessidade de centros-dia e outras atividades.Enéas Romero
Promotor de Justiça do MPCE



O promotor, assim como a presidente da Acepi, alerta para a necessidade de criação de mais equipamentos – como ILPIs e Centros Dia – para acolher essa população, sobretudo a parcela mais vulnerável socioeconomicamente.

“Fortaleza tem quase 3 milhões de habitantes e não tem nenhuma ILPI municipal. Existe uma ACP ingressada pelo MPCE contra o Município e, na última audiência, foi apresentado um cronograma para implantação da ILPI, mas não parece que vai acontecer ainda neste ano”, lamenta Enéas.

Daniel Madeira, supervisor do Núcleo Especializado no Atendimento à Pessoa Idosa da Defensoria Pública Geral do Estado, destaca que, nos últimos dois anos, houve “um aumento relevante dos abandonos de idosos pela família” entre as demandas.


8,5 MIL
procedimentos foram realizados, entre janeiro e maio deste ano, no Núcleo Especializado no Atendimento à Pessoa Idosa da Defensoria.



“Existe um preconceito em relação ao idoso, um mundo cada vez mais veloz onde alguns tratam o idoso como um fardo. A diminuição das relações de afeto, a dissociação dos vínculos familiares, até a dificuldade financeira das famílias contribuem para isso”, opina.

Trabalhar políticas específicas, pondera o defensor, é crucial na preparação do Estado para o envelhecimento populacional. “Melhorar a infraestrutura de acesso às instituições e espaços públicos; criar Centros Dia e ILPIs custeadas pelo poder público, divulgar os direitos da pessoa idosa. Tudo isso perpassa por uma mudança educacional e cultural.”

Saúde: 57 cidades ainda não aderiram a censo sobre unidades básicas





Dados do Ministério da Saúde mostram que 96,3% dos municípios brasileiros manifestaram interesse em participar do Censo das Unidades Básicas de Saúde (UBS). Além de cidades do Rio Grande do Sul, que terão prazos distintos para adesão e preenchimento por conta das enchentes que afetaram o estado, 57 municípios de outros estados ainda não aderiram ao levantamento.


Em nota, a pasta avalia que a alta adesão marca a retomada do diagnóstico desse tipo de serviço após 12 anos. As cidades que ainda não efetivaram sua participação podem manifestar interesse por meio do módulo de adesão no sistema Gerencia APS, disponibilizado na plataforma e-Gestor, até 31 de julho.

A proposta do censo é aprimorar a Política Nacional de Atenção Básica (Pnab) e fortalecer programas de investimento da atenção primária, assegurando acompanhamento adequado e qualificado no Sistema Único de Saúde (SUS). “A iniciativa visa a identificar as demandas e os desafios enfrentados pelas trabalhadoras e trabalhadores das UBS e gestores locais e orientar soluções para os principais gargalos que dificultam o acesso, a qualidade e a integralidade dos serviços prestados”.


(*) Com informações da Agência Brasil

Em julho, estaremos de volta às narrações do futebol amador, direto do Moraisão.

COM A GRAÇA DE DEUS, NO MÊSDE JULHO RETORNAMOS A NARRA O NOSSO FUTEBOL AMADOR, DIRETO DO ESTÁDIO, JOSÉ IRIS DE MORAIS, O MORAISÃO.

TRANSMISSÕES SERÃO PELO CANAL DO YOU TUBE DA WEB RÁDIO NOVA ROMA DE CAMPOS SALES.

 

quinta-feira, 27 de junho de 2024

COLUNA DO CARLOS ...OPINIÃO.


 

Opinião |Percentual de gordura corporal: para que serve essa medida? Qual o jeito mais correto de conferi-la?


Você já deve ter ouvido falar desse idolatrado número – e talvez até tenha alguma meta baseada nele; porém, ele não serve exatamente para aquilo que a maioria das pessoas imagina



Por Desire Coelho



O percentual de gordura se refere à proporção de massa gorda que temos no corpo – e aqui começam os problemas. Primeiro, existe apenas um método padrão-ouro para medir esse tecido: a dissecação de cadáver. Sim, isso mesmo. O método mais preciso para medir a gordura corporal envolve separar e pesar cada depósito de gordura do corpo. Para aqueles que prezam o rigor científico em suas vidas, boa sorte na próxima avaliação corporal!

Usado na ciência em modelos animais e para desenvolver as principais fórmulas de composição corporal utilizadas hoje, esse é o método mais confiável e complicado que temos. Por isso, até mesmo o termo “avaliação corporal” é impreciso. O correto seria dizer que vamos estimar a composição corporal, pois é isso que as fórmulas e os diferentes métodos realmente fazem.

Principais métodos utilizados

Há diversos métodos que podem ser utilizados para estimar o percentual de gordura, mas, quando falamos da prática clínica, os principais são: DXA, bioimpedância e dobras cutâneas.

DXA (densitometria por absorção de raios-X de dupla energia)

Dentro da prática clínica, esse método também poder ser considerado como padrão-ouro. Conhecido por avaliar principalmente a densidade mineral óssea, ele é o melhor método para avaliar a composição corporal. Geralmente está presente apenas em laboratórios de exames por imagem e é amplamente utilizado em pesquisas científicas.


Bioimpedância

Cada vez mais popular, é um dos métodos mais complicados. Ela funciona por meio da passagem de uma corrente elétrica que é conduzida pela água corporal. Existem diferentes tipos de dispositivos: bipolares (pés ou mãos) ou tetrapolares (pés e mãos). Inserem-se os dados da pessoa e, ao ligar o aparelho, é calculado o tempo que a corrente demora para atravessar o corpo. A partir daí, levando em conta os tecidos corporais presentes no percurso da corrente e quanto de água cada tecido possui, em média, o aparelho possui uma fórmula para estimar as quantidades de massa gorda e de massa magra são encontradas no caminho.

Deu para perceber onde pode ocorrer erro? Se o nível de água no corpo variar muito – por causa de fatores como estado de hidratação e retenção, oscilação hormonal (como a TPM) e uso de medicamentos –, o resultado ficará comprometido. O ideal é, como recomenda o fabricante, que a pessoa esteja nas mesmas condições em cada medição, o que nem sempre é possível na vida real. Existem academias que deixam essa balança livre para o aluno medir quando quiser. Isso não faz o menor sentido!

Se você possui uma balança dessas em casa, tente estar sempre nas mesmas condições e, no caso das mulheres, atenção especial à fase do ciclo menstrual. Lembre-se de que o corpo não é estático, por isso é normal que os valores, assim como nosso peso, flutuem.
Dobras (ou pregas) cutâneas

Esse método mede a espessura da gordura subcutânea, localizada embaixo da pele. Usando um aparelho chamado adipômetro, o avaliador mede a espessura da pele e da gordura em diferentes locais padronizados no corpo, como braços, barriga, costas e pernas. As medidas coletadas são inseridas em fórmulas específicas (existem mais de 200 diferentes para o avaliador escolher) e, assim, estima-se o percentual de gordura do paciente. Nesse método, o principal fator de interferência é a habilidade técnica do avaliador.

Avaliação das dobras cutâneas é uma das formas de estimar o percentual de gordura no corpo. Mas habilidade do avaliador é essencial para chegar ao número mais próximo da realidade. Foto: Kaspars Grinvalds/Adobe Stock

Quais os valores de referência para homens e mulheres?

Quem é da área já escutou alguns valores de referência, sendo o mais popular que homens deveriam ter de 15 a 20% de gordura e, mulheres, de 20 a 25%. No entanto, esses números não possuem qualquer respaldo científico ou relação direta com saúde. São valores genéricos, baseados em estudos com atletas e, apesar de serem bastante disseminados, não servem como referencial de saúde para a população em geral.

Na prática clínica, percentual de gordura pode ser uma boa ferramenta para comparar o processo de mudança da mesma pessoa, mas não para avaliar a sua saúde. Para esse fim, a principal medida que temos de referência é a circunferência abdominal. Cabe destacar que o famoso IMC, o índice de massa corporal, também é extremamente limitado na prática clínica. Ele é útil apenas em estudos populacionais com centenas, milhares, milhões de participantes.

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Novos parâmetros?

Um estudo recente propõe um percentual de gordura de referência para substituir o famigerado IMC. Para chegar a esse número, os pesquisadores correlacionaram os dados de saúde com o resultado de percentual de gordura do DXA de quase 17 mil adultos e chegaram aos seguintes percentuais de referência, tanto para mulheres quanto homens:

Homens: sobrepeso acima de 25%, e obesidade acima de 30% de gordura
Mulheres: sobrepeso acima de 36%, e obesidade acima de 42% de gordura

Um dado interessante do estudo é a grande variabilidade de diferentes percentuais de gordura para um mesmo IMC. Por exemplo: dentro do IMC de 30,0 kg/m2, em que a pessoa seria classificada como obesa, era possível encontrar participantes com percentual de gordura variando de 18% a 52% – ou seja, de bem magros a bem gordos –, o que reforça a fragilidade do IMC.

Para ser considerada confiável, essa nova proposta de percentuais de referência ainda precisa ser confirmada por outros estudos e, paralelamente, a ciência segue buscando alternativas que se mostrem melhores que as atuais.

Com o que se preocupar

Magreza não é sinônimo de saúde: sabemos que pessoas visualmente magras podem ter a saúde comprometida se elas acumulam gordura na região intra-abdominal ou visceral. A ciência é clara em mostrar que o problema é o excesso de gordura corporal e que, tão importante quanto a quantidade, é a localização dessa gordura.

Logo, embora o percentual de gordura seja uma avaliação popular, é crucial entender suas limitações para usá-la corretamente.

As pessoas se esquecem de um dado fundamental: o tecido adiposo é um órgão importantíssimo. Ele se comunica com outros órgãos do corpo, incluindo o cérebro, e regula nosso gasto de energia, nossa alimentação e, consequentemente, nossa composição corporal. Quando falamos de emagrecimento, isso significa consumir parte desse órgão.

Cada organismo responde de um determinado modo e saber como o seu corpo funciona é fundamental para a saúde em longo prazo. Como você acha que seu corpo lida com isso?

A arte de se separar


Escrito por Adalberto Barreto, ceara@svm.com.br
A verdadeira separação não é separar-se de seu companheiro de carne e osso, mas do que cada um traz do seu modelo familiar anterior

Legenda: As primeiras crises na vida do recém-casado é quando um espera do outro o comportamento da família de origem
Foto: Shutterstock

Adalberto Barreto



A primeira escola é a família. Quando nela chegamos, trazemos, além da herança genética, memórias do que as gerações anteriores viveram, que se manifestam no nosso corpo e em nossas atitudes e comportamentos. Quem não se lembra do ditado popular: "filho de gato, gatinho é... filho de peixe, peixinho é"?


Ao longo da vida com nossos pais, vamos interiorizando a maneira como eles funcionam e interagem. Cada família tem sua trajetória de vida, seus valores e sua cultura relacional, tem uma direção que lhe é própria, conduz a evolução, repetição ou destruição. Cada um, carrega dentro de si, em suas atitudes, em seu comportamento, o desejo de ser reconhecido, valorizado, respeitado por si, por seus antepassados e descendentes.

É preciso escolher sua própria trajetória levando-se em consideração o que herdamos, modificando, acrescentando, transformando. Minha luta para encontrar meu lugar em minha família e na sociedade, também é a luta dos que me antecederam. Quando o encontro, todos os meus antepassados e descendentes também o encontram.

Perceber e reconhecer essa história oculta e esquecida e torná-la visível, nos permite refletir sobre o que herdamos e o que precisamos conservar das heranças positivas e descartar, eliminar nossa herança negativa. Somos pessoas em processo de evolução permanente, procurando administrar, dilapidar o legado recebido de nossos avós.


É uma grande ilusão, reduzir o legado recebido apenas a coisas materiais como terreno, apartamento, casa ou objetos materiais. Quando casamos trazemos modelos, padrões de relacionamentos de nossos pais e tendemos a reproduzi-los com o nosso parceiro/a.


Se venho de uma família de pai autoritário ou ciumento, naturalmente tenho uma tendência a reproduzir com minha companheira/o, atitudes de controle e de posse sobre o outro. Ou ao contrário, evito todo vínculo afetivo, deixando o outro desamparado e inseguro e comprometendo a convivência saudável do casal. Se venho de uma família de mulheres sofridas, submissas, e infelizes no casamento, naturalmente acho que a vida de casado/a é assim, ou ao contrário me recuso casar-se para não repetir esse padrão.



Os dois extremos são comuns na vida do casal: reproduzindo comportamentos ou reagindo a eles. Ou me conformo reproduzindo o modelo herdado, ou faço o que as mulheres de minha geração anterior não ousaram fazer. É muito interessante observar nas gerações anteriores, onde as mulheres não tinham opções de ter poucos filhos e essa geração reage sendo mãe de poucos ou de nenhum. As netas procuram reagir aos avós que não tinham essa opção de ter o controle de suas vidas.


As primeiras crises na vida do recém-casado é quando um, espera do outro o comportamento da família de origem. Ex. marido espera que sua esposa haja como fazia sua mãe devotada ao filho, escolhendo e preparando diariamente a roupa para o filho vestir. Quando o marido reclama da esposa, logo ouve dela a frase: “eu não sou sua mãe, eu sou sua companheira e não sua escrava”. Quando o marido chega mais tarde em casa, ouve de sua esposa: “já estava bebendo com mulheres?”, E ouve do esposo "eu não sou seu pai que fazia isso com sua mãe".
DESVINCULAR

A primeira lição para quem casa é se desvincular desses modelos herdados de minha família anterior. Se não nos separamos deles, vamos viver a vida deles, reproduzindo um velho modelo da família de origem, e não se vive a vida da nova família que está sendo construída.

Muitos casais não conseguem construir o novo modelo de família e em vez de se separar do modelo herdado e construir um novo modelo, eles decidem se separar de seu companheiro/a. O que eu preciso é me desvincular da concepção, do modelo de minha família de origem. Essa sim, é a verdadeira separação. O casal que não faz esse dever de casa, ou está condenado a repetir os padrões de comportamentos herdados, ou reagir a eles.


Nos lembra o adágio popular: “aonde o cachorro vai, leva sua pulga”. É comum ouvirmos de um e de outro que todos os homens ou que todas as mulheres são iguais. Iguais a quem? Iguais aos seus pais? Quando olho para minha esposa, vejo a minha mãe? Quando olho para meu esposo vejo o meu pai?


Cada um esquece que essa “praga de pulga” que vejo no outro é minha própria pulga que me acompanha em meus relacionamentos. Sem essa consciência, todas as tentativas de reconstrução de minha nova família estão fadadas ao fracasso. Do mesmo jeito que para matar a pulga do cachorro, eu não preciso matar o cachorro, para constituir uma família diferente, eu não preciso me afastar, me separar fisicamente do meu companheiro/a e sim, matar a pulga que maltrata, que faz da vida conjugal um inferno insuportável.



Temos assistido a vários feminicídios, onde o marido não aceita ser descartado de um relacionamento tóxico e termina por matar sua companheira, a mãe de seus filhos. A pulga que precisa ser morta, eliminada, é o modelo machista herdado de sua cultura familiar, e não matar fisicamente sua companheira, a mãe de seus filhos, gerando uma dor e um sofrimento ainda maior para seus filhos.


Como terapeuta de casais e de família, constatei essa realidade de perto. Aqueles casais que entenderam que uma vida a dois, exige quase diariamente, separações de comportamentos e atitudes que trazemos de nossas famílias anteriores, esses tem sucesso e conseguem celebrar as virtudes do convívio familiar. Já aqueles que não conseguem, perdem a chance de saber o valor de uma vida em harmonia.

A verdadeira separação não é separar-se de seu companheiro de carne e osso, mas do que cada um traz do seu modelo familiar anterior. Esse é o maior desafio dos que desejam construir uma família genuinamente original e não apenas dar continuidade ao modelo das famílias de origem.

Merenda escolar é aliada ao ensino e ajuda a reduzir evasão de milhares de estudantes no CE


Nícolas Paulino07:00 - 27 de Junho de 2024

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Deu 9h30, é hora do recreio. A sirene indica a formação da fila da merenda na Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Deputado Paulo Benevides, em Messejana, Fortaleza, uma das 754 escolas da rede estadual do Ceará. Hoje, o cardápio é pão com carne moída e iogurte - mas também tem o dia do cuscuz, da torrada, da vitamina de banana. Alimentos que ajudam os estudantes a manterem o foco e, em paralelo, contribuem para a redução da evasão escolar.

“Tem gente que não merenda antes de sair de casa e, comendo só bolacha, não tem ‘sustança’. Querendo ou não, estudar requer calorias”, resume Gabriel de Alencar, 16, matriculado no 2º ano. “É bom saber que a gente tem a segurança de vir pra escola e saber que vai ser alimentado para conseguir estudar direito”, complementa Maria Gabriely, 16, do 3º ano.

Nos últimos meses, o Diário do Nordeste visitou quatro cidades do Estado para conhecer o trabalho de profissionais envolvidos no combate à fome e a recepção dos beneficiários. Assim, servimos o especial “Ceará: Comer e Curar”, que mostra os sabores e desafios do combate à insegurança alimentar e seus impactos em áreas como saúde, economia e educação.


Entre conversas e risadas, o intervalo para a alimentação não é apenas um momento de descontração e sociabilidade, mas uma garantia para alunos em vulnerabilidade social. O tema não é tratado em voz alta, talvez por medo da vergonha, mas os alunos ouvidos pela reportagem sabem que outros colegas não têm o que comer em casa.

“Tem casos de pessoas que moram em ambientes próximos ao meu que vêm pra cá pra poder ter alimentação. A única refeição que fazem no dia é a ofertada na escola”, já constatou Mateus Erislan, 17, também do 3º ano. Para ele, a alimentação balanceada e a oferta de “mimos” - como chama as sobremesas como frutas e goiabada - dão ânimo para ir à escola e evitar faltas.

A diretora da unidade, Socorro Lima, tenta conscientizar os estudantes sobre o desperdício de alimentos porque essa realidade não está distante. Ela mesma, quando jovem e aluna de periferia, confessa ter passado por maus bocados porque não tinha comida na escola que frequentava - uma realidade que continuou acompanhando ao longo da carreira profissional.

“Em outra escola, tinha uma aluna que ficava muito triste toda vida que ia comer. Um dia, decidi sentar e conversar com ela. Ela respondeu: ‘fico assim porque sei que tô comendo bem, mas meus irmãos em casa não’. Para ela, aquele momento que ela precisava era, na verdade, uma tortura”, lamenta.


Tem muita gente que não tem condições de comer o básico em casa, mas a refeição que a escola proporciona é extremamente rica tanto em fibras, como calorias e proteínas, que é um negócio muito importante para ter energia. É uma ajuda para os pais terem a certeza de que os filhos têm alimentação de qualidade na escola.Michelle de Matos Araújo
Aluna do 3º ano


Escolha do cardápio

Só na escola Paulo Benevides, há cerca de 1.200 matriculados. Como a escola tem dois turnos de tempo integral - o primeiro de 7h às 14h e outro de 14h30 às 21h30 -, cada aluno tem direito a duas refeições, sendo um lanche e almoço ou jantar. Em nível estadual, segundo a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc), são servidas diariamente 791.161 refeições por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), beneficiando 402.320 estudantes.

Num processo participativo, os alunos podem contribuir ativamente com a escolha dos cardápios, que são validados por nutricionistas, “utilizando alimentos in natura ou minimamente processados, respeitando as necessidades nutricionais, os hábitos alimentares e a cultura alimentar da localidade”.





Legenda: Oferta evita alimentos embutidos e ultraprocessados
Foto: Fabiane de Paula



Assim, saem das panelas carne acebolada, macarronada, creme de galinha e até feijoada, divididos em semanas de 1 a 4 por 200 dias letivos. A titular da Coordenadoria de Gestão da Alimentação Escolar (Coale) da Seduc, Evilauba Gonçalves, afirma que o planejamento segue todas as orientações definidas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).



Além disso, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) determina que 30% do valor repassado pelo FNDE para a merenda deve ser utilizado na compra direta de produtos da agricultura familiar, sobretudo frutas, legumes e hortaliças. Atualmente, tramita no Senado o projeto de lei 212/2022, que aumenta esse percentual mínimo para 50%; o texto ainda será avaliado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).




“Em cada coordenadoria regional de educação, temos um profissional de nutrição. Trabalhamos muito apresentando o cardápio proposto e ouvindo os estudantes em suas regionais para nos adequarmos às necessidades deles”, explica Evilauba.

Há cardápios específicos para estudantes com restrições alimentares, como alergias, intolerâncias e diabetes. Até mesmo os vegetarianos e veganos entram nas discussões da Coale. “Para as condições de saúde, é exigido que o aluno apresente um diagnóstico para que a gente passe para a escola e transfira recursos para adquirir itens para ele. Nos demais casos, estamos trabalhando para oferecer alguns alimentos para suprir suas necessidades”.
Eixo de conscientização

Outras decisões técnicas levaram à exclusão de alguns itens do cardápio, como achocolatados, segundo Evilauba. Em paralelo, as escolas buscam realizar ações de educação alimentar e nutricional, mostrando os tipos de alimentos mais nocivos à saúde. “Salsicha, linguiça e outros alimentos com muito sódio não fazem parte da rede estadual do Ceará”, garante.

A primeira-dama do Estado e coordenadora do Comitê Intersetorial do Programa Ceará Sem Fome, Lia de Freitas, afirma que um dos eixos futuros da iniciativa é fortalecer a educação alimentar nas escolas, partindo da premissa de que é através de crianças e adolescentes que os adultos também podem ser sensibilizados. Ela reconhece, contudo, os desafios para a implementação dessas medidas.

“Temos um Guia de Alimentação Nacional que não temos como cumprir, desde o carboidrato, a proteína, o legume. A pessoa opta pelo que o bolso consegue pagar para encher a barriga, seja com massa ou farinha. Já chegamos na parte de entregar comida, mas agora temos planos”, destaca.





Legenda: Hora da merenda é momento também de descontração e socialização
Foto: Fabiane de Paula



Evilauba Gonçalves reitera a importância da alimentação escolar não como assistencialismo, mas como um pilar para a aprendizagem, para a permanência dos alunos no ambiente de ensino e para a transformação de hábitos nas próprias famílias.

“A gente exige da escola que o cardápio ofertado seja visível à comunidade escolar, para que o aluno chegue em casa e diga do que tá se alimentando na escola. Mostramos que alimentação de qualidade é qualidade de vida, e quando ele faz isso, também leva pra casa o hábito alimentar. Não é só o que eu como, mas o que eu vivo e pratico”, considera.
Como é feito o repasse da merenda?

O repasse de recursos financeiros do FNDE para a Seduc é realizado com base no Censo Escolar do ano anterior, em conta-corrente, para atender exclusivamente às escolas da rede estadual. O Estado do Ceará complementa os recursos financeiros recebidos do Governo Federal para incrementar os cardápios.

A previsão (estimativa) de recursos para o Programa na rede estadual cearense, em 2024, é de R$74 milhões via FNDE e mais R$191,9 milhões por complementação estadual, divididos nas seguintes modalidades:

Nas redes municipais, o cenário se repete. Em Fortaleza, conforme a Secretaria Municipal de Educação (SME), são servidas cerca de 520 mil refeições diariamente, beneficiando mais de 259 mil alunos das modalidades normal e de contraturno escolar.

Os cardápios escolares também são elaborados mensalmente com base nas necessidades nutricionais de cada faixa etária e na cultura alimentar local. Para a execução, 1,5 mil manipuladores atuam nas unidades escolares. “Todas as escolas da Rede são acompanhadas por nutricionistas, que monitoram não somente a qualidade da alimentação distribuída aos alunos, como também as boas práticas”, garante a Pasta.

Para 2024, a previsão de repasse do Pnae à rede municipal de Fortaleza é de R$53 milhões. A Prefeitura também faz o complemento com recursos municipais, investindo aproximadamente R$11 milhões a cada ano. O custo diário da alimentação “varia justamente da modalidade a ser atendida, que vai desde os berçários até os programas de jornada ampliada”.

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